quarta-feira, 30 de junho de 2010

Subitamente

Sem Copa, Band decide de última hora que exibirá Os Cavaleiros do Zodíaco

O maior sucesso da animação japonesa no Brasil finalmente retorna à TV. Porém, Os Cavaleiros do Zodíaco, que virou febre em meados dos anos 90, volta nesta tarde para a Band de forma repentina, sem alarde e com publicidade deficiente, e será exibido nos dias em que não haverá jogos da Copa do Mundo.

A notícia pegou de surpresa até mesmo o site CavZodiaco.com.br, o site sobre animes mais acessado no Brasil e parceira de praticamente todos os projetos relacionados a Os Cavaleiros do Zodíaco. Ontem, foi publicada a nota de que a série seria exibida na manhã de hoje, 30 de junho, dentro do programa Band Kids. Mais tarde, a informação foi corrigida: o dia permanece o mesmo, mas o horário mudou para 14h15. A estreia aconteceria em maio, mas fora adiada pela Copa do Mundo.

Mais irritante do que a troca para o horário de programação local – só passará para a Grande São Paulo – é o caráter súbito da informação. A Band demonstra, assim, total descaso com o produto que impulsionou uma geração de fãs nos anos 90. Os Cavaleiros do Zodíaco estreou em 1º de setembro de 1994 na extinta TV Manchete. Por lá ficou até 12 de setembro de 1997, após três anos de sucesso, ter ganhado da Globo no Ibope e vendido mais de 500 mil bonecos dos personagens da série – o principal objetivo da Samtoy, empresa espanhola de brinquedos que trouxera Cavaleiros, tardiamente, para o Brasil.

Após um hiato de seis anos, Cavaleiros voltou a ser pauta de revistas e dos primeiros sites especializados. Mas a censura barrou a exibição do anime nas manhãs da Rede Globo, que desistiu da compra e deixou o caminho aberto para a Band. Antes de voltar à TV aberta, o anime foi redublado – a versão do estúdio Gota Mágica foi extraviada; na Álamo, alguns erros que vieram da dublagem espanhola foram corrigidos – e estreou no canal fechado Cartoon Network exatamente nove anos depois da Manchete: 1º de setembro de 2003.

Até a exibição da Band, em 5 de julho de 2004, a venda dos bonecos aguçaram a nostalgia dos adolescentes, fãs da série quando eram crianças, e a curiosidade de uma nova geração já acostumada a animações japonesas como Pokémon e Dragon Ball Z. Quando Cavaleiros finalmente reestreou na TV aberta, veio a decepção: com a apresentação sofrida da cantora Kelly Key, a Band precisou cortar de dois a três minutos na história, além dos trechos violentos, para encaixar dois episódios das 17h30 às 18h15. A Band ficou satisfeita com os incríveis números de audiência; já o apresentador Datena não gostou de ter perdido metade do horário.

Este foi só o início da difícil temporada de Cavaleiros na Band. A estreia das sagas de Asgard e Poseidon aconteceu às 12h30 de 4 de abril de 2005, horário restrito à Grande São Paulo. Isso sem falar da estúpida ideia de cortar episódios da terceira reprise da saga do Santuário, às 17h30, para o último episódio ser exibido na sexta-feira e o primeiro de Asgard, na segunda-feira.

Gradativamente, Cavaleiros ia deixando a Band – exceto como tapa-buraco na programação – para ser exibido na Rede 21, canal do mesmo grupo, a partir de 22 de agosto de 2005. Em 2007, com o vencimento do contrato da saga do Santuário, as sagas de Asgard e Poseidon foram reprisadas exaustivamente. Após mais de dez transmissões sucessivas, Cavaleiros encerrou suas atividades no início de 2008, com o último episódio da saga de Asgard. Desde então, o anime teve exibição em canais menores, como a Rede Brasil (canal 59 UHF SP), mas por meio de reprodução dos DVDs lançados pela PlayArte Pictures.

Mais de dois anos separam a última exibição e a reestreia, hoje. No entanto, os fãs já preveem uma exibição instável e desrespeitosa. A chamada, feita às pressas, mostra Cavaleiros às 14h15, Malcom às 15h e Que Dureza às 15h30. São tapa-buracos da programação da Band, já que não haverá jogos da Copa do Mundo, sua prioridade. As partidas voltam na sexta-feira, cancelando as séries. Em mais uma reestreia na TV, Os Cavaleiros do Zodíaco ainda é tratado como um produto qualquer.




sábado, 29 de maio de 2010

Novo "velho" domingo

Após a agitação do mercado da TV em 2009, as estratégias saturaram. Nem um ano se passou da ida de Gugu à Record e Eliana ao SBT, mas as maiores apostas das respectivas emissoras não vingaram. Tanto que um programa foi transformado em quadro de Eliana, e Gugu quebrou uma cláusula de contrato para trocar de horário. Agora, os dois se enfrentarão em mais um capítulo da acirrada disputa por audiência aos domingos.

Eliana chegou ao SBT impressionando, com picos de 15, 16 pontos no Ibope. No entanto, o programa esfriou, especialmente após os "melhores momentos" exibidos durante as férias (Eliana estreou somente em 30 de agosto, tempo relativamente curto até dezembro). Atualmente, obtém derrotas sucessivas para Ana Hickmann e seu Tudo é Possível, na Record. Para dar fôlego à audiência da atração do SBT, o programa Romance no Escuro, uma das estreias anunciadas para 2010, foi editado e transformado em quadro de Eliana, assim como o Troca de Família foi incorporado ao Tudo é Possível.

Com Gugu, a decepção é maior. O mais alto salário da TV (R$ 3 milhões mensais) perde semanalmente para Silvio Santos, do SBT, e o Pânico na TV, da RedeTV!, amargando o quarto lugar na audiência. A mudança de horário, anunciada nesta semana pela Record, parece ser bem-vinda, embora uma cláusula do contrato - de que o Programa do Gugu deveria ser exibido após às 20 horas - tivesse de ser quebrada. A Record precisa alavancar o ibope de Gugu para compensar o dinheiro pago para tirá-lo do SBT. A medida, desta vez, é transmitir o Programa do Gugu às 16 horas, antecedendo o Domingo Espetacular, uma das maiores audiências da Record no dia.

Os dois apresentadores se enfrentarão a partir deste domingo. O Programa do Gugu leva vantagem por ser ao vivo e se mantiver o game entre loiras e morenas, que é perfeito para o horário da tarde, mas já mostrou ineficácia à noite. Porém, apesar das mudanças realizadas por Record e SBT, Eliana e Gugu demonstram saturação, principalmente pelo "sangue novo" que o Pânico na TV trouxe aos domingos.

sábado, 15 de maio de 2010

Virada otaku

Parecia trio elétrico, mas em cima do carro de som não havia Ivete Sangalo nem Claudia Leitte. Veronica, vocalista da banda J~Squad, ao lado dos demais integrantes, cantou músicas-tema de animes (animações japonesas) e agitou a Parada Cosplay, no início da Virada Cultural 2010, na noite deste sábado. É a primeira vez que a cultura pop japonesa tem espaço no evento, que acontece desde 2005.

Os otakus, como são conhecidos os fanáticos pela cultura pop japonesa, seguiram o carro de som pelo centro de São Paulo. A reunião começou por volta das 18h30, na praça João Mendes. Em seguida, vieram cantando músicas das animações nipônicas. Os cosplayers, que se vestem como seus personagens de anime favoritos, viraram alvo dos fotógrafos e dos frequentadores da Virada.

Por volta das 19h, o carro parou na praça do Patriarca, e os fãs puderam tomar fôlego para cantar suas anime songs preferidas. Os cantores driblaram o frio com as músicas e a animação do público. A apresentação ficou prejudicada pelas falhas do playback (alguém riscou o CD do show!).

Às 20 horas, os otakus se reuniram com outros nerds na praça Roosevelt, no encontro denominado Dimensão Nerd. Um palco já estava montado para Veronica, Eduardo Costa e os demais integrantes da J~Squad entoarem as músicas preferidas da animada plateia. No meio do show, as bandanas de Naruto dividiram espaço com sabres de luz, e os Cavaleiros do Zodíaco se encontraram com os Cavaleiros Jedi. Fãs de anime e de Star Wars se encontraram e, por um instante, a apresentação da J~Squad foi ofuscada pela presença de Darth Vader.

A Parada Cosplay foi um aquecimento para dois eventos que acontecerão em breve: a
CosplayCon, nos dias 22 e 23 de maio, e o Anime Friends, em julho. Porém, a expectativa fica para que a cultura pop japonesa continue na próxima Virada Cultural.

sábado, 8 de maio de 2010

O crítico polêmico

Por Raphael Scire e Paulo Pacheco

Por quase dez anos, Daniel Castro assinou a coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo. Em julho de 2009, porém, ele trocou o jornal para assumir um blog no portal R7, da Rede Record. "A proposta financeira daqui era melhor", conta. Além do salário mais alto, Castro também foi convidado a dirigir um talk show, ainda em projeto, que seria comandado pelo apresentador Augusto Liberato.

Polêmico, ele aponta o reality show Big Brother Brasil como o melhor programa da televisão brasileira. "É uma visão técnica. Eu acho o programa mais difícil de fazer e o mais bem-feito", opina. Além disso, Castro também foi protagonista de inúmeros desentendimentos na internet – o novelista Aguinaldo Silva escreveu em seu blog que ele era um jornalista com "j minúsculo". Mas ele encara essas desavenças com muito bom humor. Em entrevista exclusiva, ele fala de sua carreira, jornalismo televisivo e de sua saída do jornal paulistano.

Quando você começou no jornalismo, você pensava em fazer crítica televisiva?
Nunca.

E como você caiu nessa área?
Por acaso. Entrei na Folha em 1991. Primeiro eu comecei em jornal de bairro, fiz por uns três anos, e foi uma escola para mim. Eu fazia simultaneamente com a faculdade de jornalismo, que na verdade eu não fazia [direito]. Eu entrei na Folha como diagramador, mas não queria ser diagramador,
queria ser repórter. Logo que entrei, reativaram o trainee, fiz todo o processo de seleção e passei: era trainee das 9h às 18h e diagramador das 18h às 2h, durante uns dois meses. Passaram-se mais dois meses e comecei a trabalhar como repórter de suplementos de móveis, empregos, durante quase um ano. No meio da ECO-92, fui repórter do caderno "Cotidiano". Lá, eu deslanchei como repórter. Aí, um dia, teve uma reformulação do caderno de TV da Folha – isso foi em meados de 1996. Um cara que tinha trabalhado comigo no "Cotidiano" virou editor do "TV Folha" e me convidou. Eu falei: "Cara, eu nem assisto à televisão", mas ele rebateu: "Eu não quero alguém viciado, que gosta de televisão. Eu quero um repórter como você, com o seu perfil". Foi aí, nunca tinha pensado, eu tinha entrado na faculdade de jornalismo e queria ser repórter de política, trabalhar em Brasília.

Como você avalia o jornalismo sobre televisão no Brasil?
Acho que ele evoluiu muito nos últimos anos, mas ai
nda está muito aquém de outras áreas do jornalismo, como o político e o econômico. É um jornalismo que tem a característica de ser muito acrítico, que ainda carrega aquela carga que ele traz da fofoca. O jornalismo de televisão sempre esteve associado à fofoca, ao Nelson Rubens, e ele não perdeu isso: ainda tem esse ranço, tem esse texto, tem a preguiça da apuração, não é um jornalismo tão rigoroso como o que se pratica em outras áreas. É lógico que isso varia de veículo para veículo. Na Folha de S.Paulo, no Estadão e na Veja existe um padrão que acompanha o resto do jornal, mas mesmo nesses veículos ele é a área de lazer do jornalismo.

O jornalismo sobre televisão não investiga a televisão. Ele se contenta com muito pouco. O jornalista, os editores e os repórteres que cobrem essa área vão à entrevista coletiva, ouvem o que a emissora quer falar, o que os artistas têm a dizer, compõem o material e vão embora. Falta empenho para fazer outras pautas, investigar outras áreas. Tem tanta coisa nos bastidores da televisão que ninguém vai atrás.

Por que falta investir nessa área?

Porque os veículos não esperam dessa área uma abordagem mais crítica e os jornalistas que cobrem essa área, geralmente, são muito novinhos, muito fãs. Eu já vi jornalista pedir autógrafo para ator, achei uma coisa inconcebível. Lógico, eles são cidadãos, tem todo o direito de ter os ídolos dele,
mas pedir autógrafo em uma coletiva é inaceitável. A maioria dos jornalistas que cobrem essa área peca pelo excesso de idolatria. É o cara que é fanático por seriado, assiste a todos os seriados e entende muito daquilo, mas não tem uma postura mais crítica.

Já que você está falando de profissionais, quem você destacaria na área do jornalismo sobre televisão?
Eu gostava muito do trabalho de um cara que já não está mais nessa área, que é o Ricardo Valadares, da Veja. Dos colu
nistas atuais que estão nos três grandes veículos – Veja, Folha de S.Paulo e Estadão – não vejo muito. Um cara que está despontando, que tem futuro nessa área, é o Leandro Nomura [atualmente faz parte da coluna da Mônica Bergamo, na Folha]. Ele tem aquela pegada de celebridades, mas de vez em quando ele vai atrás de uma pauta mais interessante, procura um novo viés.

A TV no Brasil é vista como uma coisa menor, alienante. Isso interfere na cobertura jornalística que trata dela?
Interfere e esse é o equívoco. Não que a TV seja alienante, o que é alienante é o ensino que a gente tem, é o analfabetismo real e funcional. Isso sim é alienante. Temos uma TV de muito boa qualidade, um padrão muito bom, muito alto, e a imprensa e a elite, de uma forma geral, desprezam a televisão porque é um veículo de massa, o maior que existe.

Mas a elite faz uso da TV também, porque para se manter como uma elite ela precisa da televisão, que é o maior meio de comunicação do Brasil...
Essa é a pequena elite; a elite que comanda te
m outra visão. A elite cultural, principalmente, vê a televisão com preconceito: ela reconhece a televisão como a principal indústria cultural, não só do Brasil como de outros países.

Na TV aberta atual, quais os programas que você destaca?
O melhor programa, hoje, é o Big Brother Brasil. Não que ele acrescente algo à vida das pessoas, eu não vejo a televisão como u
m produto que tem que educar. A televisão, principalmente em alguns produtos dela, é meramente entretenimento, e o Big Brother, embora muita gente não reconheça, é isso: entretenimento muito bem feito. O que eu valorizo no Big Brother é que ele é muito difícil de ser feito. A chance de você juntar 16 pessoas em uma casa e não dar em nada é muito grande. A Globo e o Boninho conseguem fazer isso de uma forma que vire uma "novela da vida real", mas não é real. É um reality show com muito pouco de "reality"; reais são os personagens. Mas mesmo quem está lá dentro cria personagens de si mesmo. É uma visão técnica. Eu acho o programa o mais difícil de fazer e o mais bem-feito.

Big Brother é o melhor. E o pior?
Se eu falar Programa do Ratinho vou ser tão clichê... Eu já fiz reportagens desmascarando o Ratinho quando eu estava na Folha. O Ratinho sempre foi associado à baixaria, mas depois que eu passei a conhecer mais televisão, antes mesmo de trabalhar com ela, passei a reconhecer o Ratinho como um comunicador popular, assim como o Silvio Santos é um grande comunicador, assim como o Chacrinha foi. Ele sabe falar de maneira cômica, fazer aquele circo muito bem feito. Eu precisava ver as grades das emis
soras para pensar em um programa ruim, mas tem. A novela do SBT Uma Rosa com Amor, por exemplo, tem problemas técnicos. Tem ritmo industrial de uma fábrica chinesa.

O que o motivou a sair da Folha e assumir o blog no R7?
A proposta financeira do R7 era melhor. E também o desafio. Foi uma coisa que ainda não aconteceu, porque o que me trouxe para cá foi o convite para dirigir um talk show a ser apresentado pelo Gugu. Esse projeto
ainda não aconteceu, está adormecido.

Na época da sua saída, sua coluna bombardeava os índices da Record, da Record News, das novelas. É coincidência a Record ter lhe chamado? Foi para tirar você da Folha, para brecar suas críticas?

Eu não sou romântico de achar que a Record queria minha mão de obra. Até quis que assim fosse, mas a intenção deles não era para que eu dirigisse um programa, era para o R7, porque o R7 precisa de alguns jornalistas que tivessem credibilidade. Mesmo assim, eu não sou ingênuo de acreditar que vim para cá porque a Record me acha lindo e maravilhoso. Não é verdadeiro também dizer que eu atacava a Record, que eu tinha uma guerra pessoal com a emissora.

A minha coluna sempre foi crítica, sempre bateu em todas as emissoras. Ela batia muito na Globo, desde 2000. Eu já tive fases ali em que eu batia em todas as TVs e tive uma fase também em que a Record teve uma imagem muito positiva na minha coluna. Em 2006, eu fui ao Troféu Imprensa e o Silvio Santos reclamou no ar: "Pô, Daniel, você é evangélico? Porque você só fala bem dos bispos da Record, você devia ir lá em casa, frequentar a mesma igreja das minhas filhas". Ele fez essa piadinha e isso foi ao ar.

O que aconteceu com a Record foi o seguinte: em dezembro de 2007, a Elvira Lobato, repórter da Folha, fez uma reportagem sobre os 30 anos da Igreja Universal, falando do império empresarial que a igreja construiu, e isso gerou uma série de ações contra a Folha e a repórter. Fiéis da igreja entraram com mais de uma centena de ações e isso aproximou a Globo da Folha. Em meados de 2008, em agosto, fui almoçar com o Octavio Florisbal, diretor-geral da TV Globo, e ele só reclamou da minha cobertura, que eu só batia na Globo e ela defendendo a Folha contra a Igreja. Isso aproximou muito os Frias dos Marinho e chegou a um ponto ali em que a direção da Folha me disse: "Não tem como ignorar o apoio que a Globo está dando". Não houve uma coisa declarada, "Faça isso, bata na Record”, mas eu entendi a mensagem assim: "Pare de bater na Globo e passe a bater na Record". Virei a artilharia: era uma coisa equilibrada, batia nas duas. A Record cresceu, chegou a um ponto, parou de crescer, começou a apanhar, começou a ter um noticiário crítico para ela, um noticiário negativo. A Globo tinha épocas que estava desesperada pelo crescimento da Record, eu percebia isso, minhas fontes falavam isso, e eram fontes quentes, não tinha como não registrar. Eu podia, eu tinha essa liberdade.

Desde que você saiu da coluna na Folha, ela está um pouco defasada. Por ela, já passaram duas colunistas, Silvia Corrêa e Andréa Michael, a atual, e, nesse meio tempo, uma série de interinos. Acha que seu nome dava peso à coluna? Porque não acharam substitutos.

Não sei se é o nome, mas dava outra dimensão para ela. Não sei, acho que talvez o problema da Silvia, pelo que me relataram, é que ela não aguentou a pressão, embora o jornal não tenha essa pressão por audiência. Não sei que cobrança ela estava sofrendo.

Você chegou a indicar algum nome na hora em que saiu de lá?

Daniel Bergamasco, mas ele não quis. Agora ele é editor-adjunto de "Cotidiano". O Daniel era "meu fã". Quando ele estava na faculdade, na UNESP, teve um dia em que ele foi conhecer a Folha, me conhecer pessoalmente e eu mostrei a redação para ele. Eu o acho um repórter excelente. Ele entrou lá como assistente da Bergamo, só que quando ele foi para Nova Iorque, ganhou uma outra projeção, ganhou moral no jornal, fez um trabalho muito bom como correspondente e soube usar isso na hora em que o jornal falou para ele fazer a coluna. Ele respondeu dizendo: "Não, não vou fazer porque eu não quero. Quero ter outras ambições. Gosto de televisão como telespectador, como leitor de televisão, mas não quero cobrir isso porque acho muito rotineiro, muito a mesma coisa". Ele achava que era uma coisa que cansava. Eram sempre as mesmas fontes, sempre as mesmas pautas, eu já estava no limite ali, saí na hora certa.

Você tem mais liberdade no blog? Procura o que quer, os canais que quer?

Em relação à Folha, eu tenho a liberdade de escrever e botar no ar. Também nunca me mandaram tirar nada e nem poderia, mas nunca tive uma crise por causa disso. Na Folha, cada linha era lida por um ser da direção. Talvez tenha sido isso que tenha feito a Silvia Corrêa sair. O começo é muito difícil, imagino que a Andréa Michael não esteja agradando quem acompanha ela no trabalho, mas daqui a seis meses, um ano...

Você acompanha os comentários?

Agora, o R7 está contratando estagiários para fazer isso, mas eu libero todos.

Você acompanha outros blogs do R7? Da Fabíola Reipert, por exemplo?

Alguma coisa, sim. Do R7, eu sou mais leitor da Rosana Hermann, de quem eu já era, e do André Forastieri. Do Pedro Tourinho, eu entrei em seu blog no 1º, no 2º dia, sempre vejo alguma coisa. O da Fabíola eu acompanho sistematicamente, até para ver o que ela está escrevendo. Eu a acho muito divertida, mas é outra linha. Ela é o expoente daquilo que eu critiquei no começo: é mais a fofoca.

Você já protagonizou desentendimentos com Aguinaldo Silva e com a Daniela Albuquerque.

Com o Aguinaldo, eu não entendi. O Aguinaldo ficou "puto" porque Duas Caras não foi uma novela muito bem resolvida: teve várias notas que provavelmente ele não gostou, mas ele nunca manifestou isso. Até quando eu vim para o R7, a gente chegou a trocar e-mails, ele me passou algumas informações, mas já não era mais aquela prioridade que tinha quando estava na Folha. Mesmo estando na Folha, com Cinquentinha ele priorizou outros colunistas. O Flávio Ricco deitou e rolou em Cinquentinha e eu fiquei assim "ah tá, ok, eu mando um e-mail para o cara e ele me responde qualquer bosta". Quando estreou Cinquentinha, eu fiz uma crítica que ele não gostou. Eu falava que gostava e a crítica que eu fazia era a seguinte: ele debochava das próprias atrizes, tirando uma onda com as próprias biografias, com o próprio gênero, e não entendi por que ele não gostou disso. Talvez ele não tenha gostado que eu assisti à minissérie acompanhando pelo Twitter e registrei diferentes reações que eu captei no Twitter – e as pessoas no Twitter eram muito cruéis.

E a Daniela?

A Daniela é uma coitada, tenho dó dela. Ela não sabe escrever, não sabe falar. Se quiser ser jornalista, não pode ficar fazendo merchandising desse jeito."Eu faço programa de entretenimento", então esquece o jornalismo. São coisas incompatíveis. O que aconteceu foi o seguinte: no ano passado, no Carnaval, por ser mulher de um dos donos da RedeTV!, botaram ela para ficar ao lado do Nelson Rubens e, no último dia do Gala Gay, aparece uma "bicha" fantasiada com vários braços e ela fala: "Olha, a Medúsia!", e ela tenta corrigir, fica pior ainda. Eu nem vi isso. No dia seguinte, Quarta-feira de Cinzas, chego cedo no jornal e tenho e-mails de umas fontes que falaram "Ela falou isso, isso e isso". Eu peguei a fita, vi e falei "pô, sensacional isso" e fiz um texto falando que a RedeTV! cobre muito legal, é o lado B, faz muito bem isso, e era um texto até irônico, debochado e registrava isso, só que a Medúsia estava no título. Neste ano, na sexta-feira de Carnaval, eu estava vendo TV e estava no Twitter. Uns meninos que são SBTistas perguntaram "Poxa, cadê a Medúsia?" e eu respondi "Olha, a Medúsia deve estar de castigo por causa da bobagem que ela falou no ano passado". E a "Medúsia" tinha acabado de virar minha seguidora. Eu já a seguia há muito tempo e ela passou a me seguir porque a minha foto ainda estava no painel dela.

Você ainda a segue?

Sigo. Eu entro no Twitter dela, mas às vezes eu entro para ver o que ela está falando. Outro dia, ela escreveu para um amigo meu, mandou uma DM falando "não sei o quê, você é muito 'jatinho', mas eu gosto de você". Ela não sabe escrever. Agora estou analisando ela com mais afinco. Ontem saiu uma nota sensacional no Agora, falando que ela foi pilotando o helicóptero da casa dela para a RedeTV!. É sensacional. Tinha que ter uma investigação em cima disso. Ela fez isso mesmo: quem foi?, ela pode?, ela consegue? Ela faz um monte de coisa, o marido dela pilota – ele vai para Santa Catarina e para o Rio de helicóptero.

Você tem os números do seu blog, quantos acessos ele tem?

Em fevereiro, ele cresceu 30% em relação a janeiro e atingiu 1 milhão de pageviews.

Você acha que a web vai tomar conta da TV?

Acho que não. Aliás, mais de um teórico já escreveu sobre isso. As mídias não são substituídas, elas se complementam e se adaptam. A web, sim, vai obrigar a televisão a mudar. Ela mudou o jornalismo impresso, mas substituir, não. A TV vai mudar cada vez mais, por causa da web. Da web, tira os recursos de interatividade que, por ventura, venham a ter. A TV digital permite tanta coisa que as TVs não abrem justamente para não correrem esse risco. Mas, em tese, hoje seria possível você fazer um programa e toda a audiência interferir no roteiro dele em tempo real.

sábado, 1 de maio de 2010

Nietzsche é tema de novo livro do professor Mauro Araujo de Sousa

Livro de docente da Faculdade Cásper Líbero traz os principais conceitos do filósofo alemão

Professor Mauro Araujo e seu livro. Foto: Viviane Laubé

Nietzsche volta a ser tema de uma publicação do professor de filosofia da Faculdade Cásper Líbero, Mauro Araujo de Sousa. Assim como a anterior, Nietzsche Asceta, lançada em dezembro de 2009 (Ed. UNIJUÍ), Nietzsche: Viver intensamente, tornar-se o que se é, publicado pela Editora Paulus, teve seu lançamento na livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, no dia 27 de abril.

De acordo com o autor, a mais recente obra, escrita há dois anos durante as férias, distingue-se da anterior por ser mais condensada e por ter linguagem mais acessível. "Nietzsche Asceta é um livro mais denso, indicado para quem quer se aprofundar em alguns conceitos do filósofo com uma linguagem mais trabalhada. Recomendaria primeiro ler este e depois ler Nietzsche Asceta", declara.

Na livraria, ocorreu um bate-papo entre Mauro Araujo, o também professor de Filosofia da Cásper Líbero Francisco Nunes e o professor Rodrigo Fernandes. Logo no início do debate, o autor esclareceu a intenção da obra: "Já pensara no livro com este intuito, não de ser auto-ajuda, mas de competir com ela. Nada contra os de auto-ajuda, mas acredito que prometem demais e, ao invés de auxiliarem as pessoas, eles frustram-nas", afirma Araujo.

Fernandes lembra que o subtítulo da publicação nomeia um capítulo da autobiografia de Nietzsche, Ecce Homo. Segundo o autor, foi proposital. "Uma das intenções é também 'morar em sua própria casa', porque vivemos muito com modismos. Aliás, precisamos tomar cuidado "om os próprios escritos de Nietzsche para não virar moda, porque já virou, não é?", provoca. Mauro Araujo completa a explicação afirmando que "muitos de nós estamos sem teto, pois não somos autênticos".

Ele recomenda Nietzsche: Viver intensamente, tornar-se o que se é para pessoas que não se contentam em estagnar e pensam que todos os obstáculos que aparecem possam se transformar em estímulos fortalecedores. "E, como parte de Nietzsche, claro que é também um livro provocativo, polêmico", finaliza.

Esta reportagem foi originalmente publicada no site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Ode ao erro

Exposição discute, de forma interativa e bem-humorada, os erros de português recorrentes

Por Paulo Pacheco e Viviane Laubé

“Tá quereno ir numa esposissão?” Calma, os erros são propositais. Mas, caso não tenha entendido, a exposição Menas: o certo do errado, o errado do certo, do Museu da Língua Portuguesa, ensina a maneira correta de falar português.

Logo na entrada, a expressão “menas” em tamanho gigante assusta os defensores da língua culta e consola quem a aderiu ao próprio vocabulário. Espelhos pendurados com palavras pintadas de azul dão o tom de um jogo com efeitos óticos, prendendo o olhar dos visitantes.

Na sala seguinte, painéis saltam da parede com diversos erros ortográficos comuns durante o ato da fala. Por exemplo, muitas pessoas ficam impressionadas ao descobrir que “eu explodo de raiva” está incorreto na forma culta, pois segundo gramáticos e dicionaristas, o certo seria “eu estou explodindo de raiva”. Vitória para o maltratado e banalizado gerúndio.

Um quiz sobre o uso correto da língua portuguesa está presente no local. Mesmo quem acerta as perguntas tem uma surpresa: o computador aceita todas as alternativas como exatas. Desta forma, a exposição defende que a língua sofre transformações a partir do uso dos falantes, e se alguém utilizou uma palavra, ela existe.

Murais, aparelhos de televisão, mesas e camisetas se transformam em suportes para trechos de poesias e músicas que tratam o idioma com originalidade. As citações vão de Machado de Assis e Clarice Lispector a Demônios da Garoa e Racionais Mc’s.

Uma personagem marcante da exposição é Norma, a Camaleoa. No espelho do banheiro, quatro mulheres discutem as regras do português. A Norma Helena defende a gramática; a Brigite, o léxico; a Lígia, a semântica; e, por fim, a Maria, crente de que o uso faz o linguajar, mesmo concordando com a posição das outras. Na verdade, as quatro Normas compõem uma só personagem – a língua portuguesa.

O espaço reservado ao humor e à criatividade do brasileiro possui anúncios, frases de parachoque de caminhão e algumas das expressões mais utilizadas no cotidiano, como: “Aquele lá foi pra cucuia”, “Se pá, até rola” e “Uh! Tererê!”. Nas placas, a engenhosidade ganha níveis inacreditáveis. Uma das mais engraçadas é a da venda de um refrigerador: “Compra-se geladeira viva ou morta”.

Ao contrário do que possa parecer, a exposição não tem cunho didático. Incentiva o uso correto de nosso idioma, considerado um dos mais difíceis de aprender. Não obstante, pretende demonstrar que erros corriqueiros da fala podem ser facilmente compreendidos. Afinal, está claro o sentido da primeira frase do texto, não está?

Serviço:
Menas: o certo do errado, o errado do certo
Local: Museu da Língua Portuguesa (Praça da Luz, s/nº – Centro)
Ingresso: R$ 6 (grátis para menores de dez, maiores de 60 anos e aos sábados)
Quando: Terça a domingo, das 10h às 17h. Até 27 de junho.


Esta crítica foi originalmente publicada no site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Festa do Eu Sozinho

Localizado na Cachoeirinha (zona norte de SP), o Centro Cultural da Juventude (CCJ) Ruth Cardoso comemora quatro anos de sua fundação no próximo sábado (dia 27). No entanto, o espaço ainda é pouco movimentado, e a data corre o risco de passar em branco.

Para tentar atrair mais público, a biblioteca inaugurou, no último sábado (dia 20), uma HQteca – biblioteca exclusiva para histórias em quadrinhos. "Percebi que quadrinhos é o que mais sai da estante, então o investimento maior tem sido nisso, por isso que veio a decisão de inaugurar uma HQteca", afirma Dolores Biruel, coordenadora da biblioteca.

Alguns eventos isolados conseguem trazer mais visitantes ao CCJ. O projeto "Diálogos", que traz um profissional renomado para contar sobre sua carreira, também é realizado na biblioteca. Um dos recordes de público foi durante a vinda do ex-jogador de futebol Raí. "A do Raí encheu bastante e foi impressionante porque foi no meio da semana", ressalta Biruel.

Um projeto que busca atrair os moradores é o "A hora e a Vez do Vestibular", uma série de palestras sobre as obras literárias exigidas pelos principais vestibulares do País. Dolores Biruel fica emocionada ao comentar o sucesso dos encontros: "A ideia era incentivar a leitura. Só que eu via necessidade de ter um professor que utilizasse a linguagem do vestibular. Deu certo, e o resultado que eu tive foi o das pessoas virem até aqui e falar: 'Passei no vestibular, entrei'".

Outros eventos não têm a mesma sorte. As sessões de cinema, que aconteciam às quartas e quintas-feiras no anfiteatro do CCJ, foram canceladas no final de 2009, por falta de público. A promessa é retornar com o "cinema". "Havia sessões com cinco, oito pessoas. Queremos continuar, desde que não sejam no anfiteatro, que é um espaço privilegiado do centro cultural. Não temos prazo, mas a ideia é voltar", afirma Marília Jahnel, assistente de redes sociais.

Jahnel também adianta os preparativos para a Virada Cultural 2010, que reúne os centros culturais espalhados pela capital paulista. Em 2008 e 2009, o cineasta Zé do Caixão participou do Cinetério, que exibiu filmes de terror de madrugada em frente ao Cemitério de Vila Nova Cachoeirinha (assista ao vídeo abaixo). O CCJ, desta vez, terá uma participação mais tímida. "O Cinetério vai continuar, mas não na Virada. Decidimos que, para a Virada, teremos RPG (Role Playing Game)", antecipa.

Para comemorar o aniversário de quatro anos, O CCJ Ruth Cardoso será transformado em picadeiro, com atrações circenses no último fim de semana de março – o dia 27 também é o Dia do Circo. Já a Virada Cultural 2010 acontece dias 15 e 16 de maio.

domingo, 14 de março de 2010

Tudo o que é Sólido vira DVD

No dia 13 de março, a livraria Cultura do Bourbon Shopping Pompeia foi tomada por jovens apaixonados por livros. O local pode parecer óbvio, mas o motivo era o lançamento em DVD da série Tudo o que É Sólido Pode Derreter, produzida pela Ioiô Filmes em parceria com a TV Cultura.

Reunidos em um box com quatro DVDs, os 13 episódios da produção infanto-juvenil retratam o dia a dia de jovens de uma escola pública. A protagonista Thereza (Mayara Constantino) se envolve com as obras da literatura e passa a projetá-las em seu cotidiano.

De forma bem humorada, a série aborda clássicos como Macunaíma, de Mário de Andrade, Dom Casmurro, de Machado de Assis, e Os Lusíadas, de Luis de Camões. “Tenho o impulso de trazer outras formas de arte para dentro do audiovisual. E, na TV, sinto falta de coisas que tornem todas essas artes acessíveis aos jovens”, conta Rafael Gomes, um dos criadores de série.

O evento começou com um bate-papo com os diretores e atores de Tudo o que É Sólido Pode Derreter. Durante a coletiva, o elenco destacou que a série não tem a linearidade comum na dramaturgia televisiva. Thereza, por exemplo, mesmo sendo a personagem principal, não é boa moça o tempo todo. Nem Dalila (Wendy Bassi) exerce o papel de antagonista em todos os episódios – como o próprio nome da série sugere. Ao final, os atores foram surpreendidos com a exibição, no telão do auditório da livraria, dos erros de gravação, além de momentos de descontração entre os atores.

Em seguida, o público adolescente pôde praticar a tietagem com pedidos de autógrafos e fotos. “Graças ao episódio sobre Os Lusíadas, consegui tirar 8,5 na prova”, confessa uma fã ao diretor Esmir Filho.

Rafael Gomes adianta a produção da segunda temporada da série, que começará a ser produzida em breve. “O projeto mira obras da literatura de língua portuguesa. Vamos continuar com essa investigação das obras literárias dos grandes autores nacionais.”

A produção audiovisual também está prestes a concorrer espaço com os clássicos que aborda. O diretor começou a escrever um livro sobre Tudo o que É Sólido Pode Derreter. “Foi um convite de uma editora que gostou muito do trabalho feito na série. Estou tendo que descobrir como fazer isso, é um trabalho diário”, revela Rafael.

Enquanto a nova temporada não começa, os fãs podem assistir aos 13 episódios iniciais da série pela internet. Mas também vale o convite de aproveitar o tempo lendo uma das obras indicadas em Tudo o que É Sólido Pode Derreter.

EDIT: Esta reportagem foi publicada no site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O suor multirracial

Filme mostra lições de superação e esperança em um país tomado pelo apartheid

Por Fernanda Patrocínio e Paulo Pacheco

Invictus, dirigido por Clint Eastwood, mostra como Nelson Mandela utilizou o rúgbi para unificar uma nação dividida pelo apartheid. Escolhido pelo ex-presidente para interpretá-lo na película, Morgan Freeman dá vida a um líder sensível, que olha com otimismo as pequenas vitórias em uma nação desgastada político e socialmente.

É com este espírito esperançoso que Madiba – forma carinhosa na qual os sul-africanos chamam Mandela – dá forças a seleção de rúgbi do país (conhecida como Springbooks), contrariando a todos. O esporte é uma das heranças da colonização britânica na África do Sul, sendo praticado majoritariamente pela população branca. Ao assistir a uma partida, ele percebe que a seleção é um grande fiasco, como a nação dividida entre brancos e negros. Sendo assim, promove a mobilidade social entre os sul-africanos pela Copa do Mundo.

O capitão do time de rúgbi, François Pienaar, é o escolhido por Mandela para representar essa nova esperança da África do Sul. Interpretado por Matt Damon, o personagem vem de uma família que é contra o fim do apartheid e teme que a liderança do negro Mandela se vingue da presença branca no país. Madiba ficou 26 anos preso devido ao governo regido por brancos. Pienaar é convidado a tomar chá – outro hábito inglês – com o presidente e, nesta conversa, ele revela o desejo de ver, até então, o fracassado time de rúgbi da África do Sul sendo campeão do mundo. Na equipe só há um jogador negro e este é o grande ídolo do país, não somente pelo desempenho em campo, mas devido ao peso simbólico de um afrodescendente em um time predominantemente branco.

Mandela mescla esporte e política, construindo uma emocionante narrativa contemporânea da África do Sul. No decorrer da história pequenos gestos de união intrerracial são evidenciados, alegrando o sábio governante. A dedicação dele é tanta que há momentos em que os personagens se perguntam se ele está interessado somente na política ou no esporte também. O presidente cria um vínculo forte, quase familiar, com os atletas do time de rúgbi. Passa a deixar a política em segundo plano e transforma a modalidade em paixão nacional. Fato é que a perseverança em todo processo transforma uma nação, que apesar de continuar pobre, tem sua auto-estima aumentada.

Freeman incorporou o Madiba na vestimenta, discursos e até mesmo no peculiar sotaque inglês do idioma sul-africano. A narrativa do longa deu um tom mais romântico, quase canônico, à vida dele. Essa característica se evidencia quando Pienaar visita a cela onde o presidente ficou preso. Ele, recordando o poema que o líder lia para se reerguer, percebe a responsabilidade de unir seu time para que Mandela pudesse unir seu povo.

No filme, Eastwood usa um esporte violento para representar a realidade crua que a África do Sul vivia. A segregação racial, miséria, sobretudo da população negra, rivalidades e falta de esperança no país e no sentimento de cidadão sul-africano são tão transparentes quanto as vexatórias derrotas dos Springbooks. De forma agressiva e perseverante a história de superação é construída, valendo-se a força interior que cada um carrega em si. A imagem do início da película, em que crianças negras abandonam o jogo de futebol para saudar intensamente Mandela, revela que ali transita um dos maiores ícones da contemporaneidade.

Quem assiste a Invictus sai do cinema encantado com lições de superação contadas no longa: a seleção desunida, preterida pela maioria da população, mas que conseguiu vencer a Copa do Mundo; a de Mandela, abandonando o triste passado de segregação para reconstrução de sua nação e da África do Sul, que sedia a Copa e mostra o significado do patriotismo ao mundo. Dever cumprido para um homem que, através do esporte, trouxe de volta o amor para seu país.

Esta crítica foi originalmente publicada no site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A "galera" mais feliz do Brasil

ATENÇÃO: ESTE TEXTO, SOBRE OS BASTIDORES DO PROGRAMA 1 CONTRA 100, CONTÉM SPOILERS (INFORMAÇÕES SOBRE O ENREDO). CASO QUEIRA MANTER A EXPECTATIVA PARA A EXIBIÇÃO DO PROGRAMA, NÃO LEIA.

Neste domingo, a produtora Casablanca gravou três edições do programa 1 contra 100. Pode ser um fato comum para Roberto Justus, o apresentador, e Paulo Franco, o diretor. Mas, para mim, Paulo Pacheco, uma das gravações foi especial. Porque teve minha participação.

Quando soube, através do Twitter, que a produção do programa estava à procura de fãs do SBT para participarem do 1 contra 100 especial "SBTistas" (fanáticos pela emissora), não me contive e enviei meus dados instantaneamente. Na segunda-feira, dia 1º, soube que tinha sido selecionado. Após a informação, organizei minha rotina para que nada desse errado.

Logo começaram os empecilhos. As restrições quanto ao vestuário eliminaram todas as peças de meu guarda-roupa. Sendo assim, tive de aderir ao "pretinho básico" e comprei uma camisa às pressas.

Hoje, às 13 horas, uma fila de jovens fãs do SBT aguardando a gravação do programa (era a segunda) se formou na produtora. Andando pela fila, percebia-se conversas distintas: de "como foi a audiência ontem?" a "você se lembra em que dia estreou tal programa?", mas todas versavam sobre "a TV mais feliz do Brasil". Tentei entrar em alguns grupos por meio do humor, rindo de emissoras concorrentes e realizando minha divertida, porém infame, imitação do Silvio Santos. Muitos gostaram, para meu alívio. Alguns participantes eram simplesmente ilustrativos, apenas preenchiam espaços vagos no estúdio. Realizamos, pois, um "intensivão" sobre o SBT para os "figurantes" não darem vexame.

Durante a permanência na fila, assinei os termos de responsabilidade. Após entregar o contrato, entreguei as cópias dos documentos solicitados (RG, CPF e comprovante de endereço) e recebi o delicioso lanche oferecido pelo SBT: meia baguete de queijo sabor peru, bombom Sonho de Valsa e um suco de caixinha sabor pêssego. Devorei-o após a maquiagem - sim, fomos maquiados! Celulares e câmeras tiveram suas baterias retiradas, eliminando qualquer possibilidade de registro do programa. A plateia - a mesma de outras gravações - pôde nos fotografar, assim como o profissional contratado pelo SBT.

Recebi uma fita de identificação e um adesivo com meu número: 74. "Será que vou aparecer muito?" Não pensei nisso com intenção de me exibir demasiado no programa. Ao contrário, queria me esquivar ao máximo das câmeras. Os mais filmados ocupam os lugares próximos ao posto de Roberto Justus e do convidado ou ao telão do cenário. Graças à lei de Murphy, a cabine 74 preenchia este requisito. Pelo menos estava maquiado!

Antes do especial com "SBTistas", o produtor nos aqueceu. Perguntava a toda hora se era "a grana ou a galera". Fiquei rouco de tanto gritar "a galeraaaaaa! Vem! Vem! Vem!". Em seguida, veio Justus para gravar um comercial. Impaciente, recusou-se a repetir pela quarta vez a gravação e pedia para a produtora secar seu rosto suado.

Enfim, a gravação começou. Três horas depois de chegarmos à Casablanca. Os convidados especiais - Liminha e Patrícia Salvador - ocuparam seus postos. Na plateia, outra ilustre convidada: Daniela Beyruti, diretora-geral do SBT e musa dos "SBTistas". A primeira convidada, Christina Rocha, abusou da irreverência, sua característica mais marcante.

Caí na pegadinha da primeira pergunta. Minha saída precoce do programa foi compensada pelo momento mais emocionante de minha relação com o SBT. Roberto Justus, ao ver que Patrícia Salvador tinha errado a questão, quis fazer graça, e perguntou quem sabia imitar o Silvio Santos. Imediatamente vi dedos indicadores apontados para o número 74. Era a minha fama nos bastidores! Repeti duas vezes, pois a câmera não havia me localizado. Descontraído, porém tímido, imitei o dono do Baú e fui aplaudido. Emoção indescritível!

Mesmo desclassificado, continuei a responder às perguntas. O aparelho embutido à cabine tem números e uma tecla "C", que não funcionavam. Os botões que interessavam eram os correspondentes às letras das alternativas ("A", "B" e "C"). Tínhamos dez segundos para responder à questão, e isso deve ser feito com muita calma. Alguns afobados apertaram o botão antes da luz vermelha piscar no aparelho, e foram eliminados. Outros, nervosos, responderam após o tempo estipulado. No visor aparece o nome do programa, uma contagem regressiva de dez segundos e o número do RG de cada um, inclusive o dos convidados. Conferi a informação vendo o visor do aparelho do Liminha, que ocupou o lugar 72, bem próximo a mim.

Decepcionei-me com minha saída precoce da competição. Estava acertando todas as questões subsequentes. Contudo, senti-me aliviado quando respondi - mesmo sem valer nada - a uma pergunta relacionada ao programa Domingo no Parque. Chutei, errei e pensei: "Puxa, eu iria sair de qualquer maneira".

O participante seguinte era o carismático e inteligente Moacyr Franco. Àquela altura, estava apreensivo. Além de temer o desempenho do convidado, minha bexiga começava a encher rapidamente. Disfarcei a vontade de ir ao banheiro com pulos e muita agitação. Por sorte, as perguntas eram fáceis. Aprovei minha performance nessa parte do jogo.

Na saída, corri até o banheiro, mas parei pela vontade de tirar uma fotografia com Patrícia Salvador. Minutos depois, foi a vez do encontro com Daniela Beyruti (foto - tremida, infelizmente - ao lado). ela, que estava tranquila junto à plateia, foi convidada a se juntar à "galera". Ela topou, e ocupou o lugar de uma moça que tinha ido ao banheiro. "SBTistas" que estavam na entrada da produtora avistaram sua musa. Fotos, beijos e abraços. A filha "número 3" de Silvio Santos sentiu na pele as consequências da fama, ainda sentidas pelo pai.
O dia 7 de fevereiro foi o dia da glória dos jovens que participaram do 1 contra 100. Para Justus, Franco e a produção do programa, mais uma gravação. Para os "SBTistas", a oportunidade de fazer parte da história do SBT e de conhecer os ídolos.

O 1 contra 100 especial com "SBTistas" irá ao ar, provavelmente, entre o fim de março e o início de abril de 2010, segundo o diretor Paulo Franco.

ATUALIZADO: O 1 contra 100 especial com "SBTistas" irá ao ar dia 14 de abril, a partir das 23h, de acordo com o diretor do programa, Paulo Franco.